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#Exemplo internacional

Como a Nova Zelândia saiu da crise?

Como a Nova Zelândia saiu da crise?

Comparar o Brasil com a Nova Zelândia hoje pode até ser encarado como covardia. Mas no início da década de 1980, eles estavam numa situação bem parecida com a nossa (até pior, em alguns aspectos), com uma inflação de 15% ao ano, uma dívida de 65% do PIB, 11,6% da população desempregada, os gastos do governo chegando a 44% do PIB, investimentos em queda, notas de classificações de risco — concedida pelas agências Standard & Poor's, Moody's e Fitch —continuamente rebaixadas e queda livre no ranking de renda per capita, despencando do terceiro para o 27º lugar entre 1950 e 1980. 

As causas de todo esse caos não são difíceis de explicar. O governo queria gerenciar praticamente todas as atividades da economia, desde as grandes empresas até as mercearias. Havia controle de capitais e controle de câmbio. Controle de preços em todos os bens e serviços, em todas as lojas e em todo o setor de serviços. Havia controle e até mesmo congelamento de salários pelo governo, como medida para evitar a inflação. Havia controle de importação, com o governo determinando quais bens poderiam ser levados para o país, e maciços subsídios às indústrias, a fim de mantê-las viáveis. Era aquela história de primeiro quebrar as pernas para depois conceder uma muleta. Para sustentar toda essa gastança ineficiente, a última alíquota do imposto de renda era de inviáveis 66%. Resumindo: gastos excessivos, impostos excessivos, e excesso de governo. 

No meios do caos, sem ter mais pra onde expandir as garras estatais, a única saída encontrada pelo governo (de esquerda, o que é mais interessante), foi liberalizar. E a idéia revolucionária adotada foi: o governo não deveria gastar mais dinheiro do que arrecadou. E algumas medidas foram tomadas para melhorar a eficiência:

- Privatizações massivas de rádio, televisão, portos, aeroportos, ferrovias, correios, energia elétrica, bancos, gráficas, hotéis, empresas de seguros (sim, o governo neozelandês tinha tudo isso), etc;

- Fim da estabilidade de servidores públicos. Ao invés disso, foi feita uma ampla seleção para o mais alto escalão, e os selecionados passaram a ter total liberdade para formar sua equipe, com uma única condição: cumprir as metas estabelecidas. O único fundamento para a demissão desses CEOs era a não-execução do que fora acordado, de modo que um governo recém-eleito não pudesse simplesmente mandá-los embora, ao mesmo tempo em que havia um claro incentivo para o cidadão não encher os órgãos públicos com apadrinhados políticos que em nada contribuem para o desempenho do seu setor;

- Reforma trabalhista radical, dando ampla liberdade de negociação entre patrão e empregado;

- Liberação do câmbio;

- Redução do imposto de renda em 50%;

- Vouchers educacionais e eliminação do Ministério da Educação, pois foi constatado que para cada dólar gasto com educação, 70 centavos eram consumidos pela estrutura burocrática de administração. Cada escola passou a ser administrada por um conselho de gestores eleito pelos pais das crianças que frequentavam aquela escola, e por mais ninguém;

- Eliminação de todos os subsídios para a indústria;

- Eliminação de processos burocráticos desnecessários, como a necessidade de renovação da carteira de motorista. Agora, uma carteira de habilitação é válida até a pessoa fazer 74 anos, data após a qual deve fazer um teste médico anual para garantir que ainda é competente para dirigir. 

Bom... você pode imaginar o rebuliço que idéias tão diferentes causaram numa sociedade acostumada ao estatismo. Mas 30 anos depois, a Nova Zelândia não entrou em colapso e, mais do que isso, figura agora em vários rankings como um dos melhores países para se viver, se imigrar e se fazer negócios. A inflação está em 2% ao ano, desemprego em 6%, o salário médio (mesmo sem leis trabalhistas) dobrou em 20 anos, e a dívida caiu para menos da metade.