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#investimento

Bitcoin é reconhecido pelo governo japonês

Bitcoin é reconhecido pelo governo japonês

A palavra “bitcoin” ainda evoca na mente das pessoas histórias de hackers, sequestro de dados e dark web. Embora haja pessoas que realmente o utiliza para este fim (e, nestes casos, a culpa é da pessoa, e não da moeda), os últimos meses têm testemunhado uma mudança na visão de investidores e reguladores.

O que era motivo de risada virou alvo de curiosidade e depois interesse objetivo. O número de fundos de hedge investindo em bitcoin se multiplica em velocidade acelerada nos Estados Unidos. Grandes nomes do mercado financeiro, como o Goldman Sachs, já realizam cobertura regular com analistas dedicados à criptomoeda (e visão otimista, diga-se de passagem).

Uma peça-chave desta guinada no modo como o bitcoin é visto se origina do outro lado do planeta: no Japão.

Até poucos anos atrás, a participação do país no mercado mundial de bitcoin era medíocre. Embora servisse de sede para aquela que foi durante anos a maior corretora de bitcoins do mundo - a hoje defunta Mt.Gox-, o Japão nunca demonstrou grande paixão pelo investimento na moeda virtual.

Terra de uma população poupadora e afeita à especulação de moeda estrangeira, além de títulos governamentais com juros negativos, o Japão não precisou de muitos anos, entretanto, para exibir apetite pelo bitcoin. Tudo viria a se acelerar no primeiro semestre de 2017.

No Vale do Silício chama-se de “momento Netscape” um evento crucial (tipicamente a obtenção de amplas somas de capital) que permite a uma determinada empresa ou tecnologia alçar-se a um nível muito mais elevado – idealmente global – de abrangência e importância. Alguns autores sugerem que o “momento Netscape” do bitcoin não tenha sido proporcionado por um grande aporte de um fundo de investimento, ou um aplicativo genial criado na Califórnia, mas sim pela (até poucos anos atrás, pelo menos) improvável decisão do governo japonês de reconhecer o bitcoin como um método legalizado de pagamentos.

É curioso observar que essa decisão foi fruto de meses de discussão e em boa parte decorrente da desastrosa falência da Mt.Gox em 2014. Válida desde primeiro de abril deste ano, trouxe como consequências um “boom” de varejistas aceitando bitcoin, bem como um grande aumento da cotação em ienes da criptomoeda. Durante algumas semanas do ano, a demanda no Japão era tão grande que os compradores locais se submetiam a pagar ágio superior a 10% na compra da moeda virtual. Alguns restaurantes relatam dezenas de pagamentos em bitcoin por mês (mais baratos e sem risco de fraude).

Mais do que o impacto global da demanda de investidores nipônicos, a decisão do governo japonês oferece enorme credibilidade à moeda. É bem verdade que o Japão não está sozinho: é possível comprar bitcoin em qualquer totem de passagem ferroviária na Suíça, e o governo australiano deve aprovar nas próximas semanas lei semelhante ao Japão. Ninguém (lúcido) quer correr o risco de ficar irreversivelmente para trás na evolução disruptiva da gigante e lucrativa indústria financeira.

Desde o “momento Netscape” proporcionado pelos japoneses, a cotação do bitcoin quase triplicou, mas ainda está longe dos 100 bilhões de dólares. Num mercado financeiro com trilhões de dólares em juros negativos (e outras dezenas em dívidas de governos cada vez mais gastadores), nada impede que o irmão mais novo (punk e insubmisso) das moedas tradicionais queira sentar cada vez mais perto da cabeceira da mesa de jantar.